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Blog de osanosjk


BAIXO E BATERIA

 

O bebop morreu há mais de 50 anos mas parece ter ressuscitado naquele instante. Ninguém mais quer saber de jazz, argumentei. Com as duas mãos segurando a cabeça, olhando lá no fundo do copo de cerveja, meu parceiro fechou os olhos num esforço de voltar no tempo. Detesto nostalgia, essa tristeza que nos faz passear nas cavernas da lembrança. Ainda bem que eu não bebo.  Prefiro café sem açúcar, me deixa irritado, com ganas de tocar, de explodir as baquetas no couro, de mergulhar num fluxo rítmico e não mais sair. O bebop que se foda. Mas o cara na minha frente delirava em reviver um solo de baixo do Ron Carter, queria fazer igual. Insistiu para que eu ouvisse a bateria, aprendesse como acompanhar, tirou do bolso o iphone para que eu colocasse aquelas coisas no ouvido, me inspirasse, havia  uma chance, um set só nosso no show do Monstro. Amanhã a gente pode ensaiar no estúdio, domingo ninguém vai lá, nem vão saber. Não respondi, era uma forma de ganhar tempo. Prefiro que ele sole, vá montando uma linha,  preparando para eu entrar , acordes persistentes,  meu, mais rápido agora, sem perder a cadência, acelerando, livre para ir em qualquer direção.  Mais um café, por favor.

Meu parceiro continua tendo ideias, até entender que minha atenção está longe. Ficamos alguns minutos em silêncio. Ele se sente resignado, já sabendo que aquele convite vai resultar num improviso, eu quebrando tudo, ele iniciando a base e depois correndo atrás para manter alguma dignidade do seu instrumento. Na cozinha da banda do Monstro, nós apenas cumprimos ordens, acompanhando suas ácidas performances no sax.  Eu estraçalho tudo e ele segue sem perder nenhum instante de fôlego. E quando eu troco para uma batida suave, o sax distorce num arremedo da primeira parte. Mas ele pode, por isso é o Monstro. Imprevisível sempre, ele parou o ensaio de ontem e olhou para nós dois. Com os olhos esbugalhados de cansaço e transe, nos deu carta branca, um dueto no meio do show.  Baixo e bateria. Bateria e baixo. Não queria nem saber o que viria. Tinha total confiança em nós, músicos completos, senhores de nossos timbres, harmonias e ritmos. Os metais iriam se calar,  a sala ouviria o som lá do fundo do palco. Essas  palavras retumbavam nos nossos 4 ouvidos naquela mesa de bar.

Então veio uma ideia que só podia ser o desastre que foi. Algo que eu queria muito: colocar voz no final do dueto. Soltar uma centelha que tirasse a todos do marasmo, daquele medo passivo, ignorante, uma atitude apenas, um desafio ao Monstro,  a nós mesmos e à plateia que vinha  se deleitar com  nossa arte. Quer estragar tudo? Pense em algo que não tenha nada a ver com música.

No final do nosso som, a gente falaria algo que tocasse  o público, que tivesse um efeito mobilizador, ou para amar ou odiar,  um abraço ou uma cuspida. O Monstro aprovaria? Nós dois balançamos a cabeça sem abrir mão da ideia.  Então ensaiamos, passando o domingo procurando a mensagem que atritaria o sentido da palavra com a música, um metal trincando, um ruído rascante,  um acorde grave agressivo, um som inútil porque teria conteúdo, mensagem descolada das notas e harmonias. Os dedos ágeis do meu parceiro pesaram. A minha mão bateu fundo  num ruído peripatético. O ensaio evoluía para o caos que procurávamos.

Já exaustos, numa espécie de transe, no silêncio absoluto do estúdio, tentamos dar um sentido ao que acontecia, o que se via n TV, o que ficava nas entrelinhas dos telejornais, alguém humilhado entre racismos e sexismos,  o amor em tempos de cólera, os ódios crescendo; tudo muito confuso como uma novela mal escrita. Então fomos construindo  a vontade de tocar num frenesi, agora era hora de se livrar daqueles conceitos tão retrógrados, que venham os emigrantes. É neste estado de espírito que nós vamos surpreender a plateia. Se em cada esquina tiver alguém gritando, batendo lata, bandeira em punho, a coisa vira. Mas como reagiria o Monstro?

O baixo  fechava os olhos, gengiva à mostra, concentrado numa careta introspectiva, insistindo que o nosso fluxo terminaria na palavra. Foda-se a música. Depois viriam as palmas, vaias, reações histéricas; nós dois nos achando importantes demais, aliviados ou arrependidos, qualquer sensação nos agradaria.  Procuramos o final que surpreenderia, que seria um ponto fora da curva, a incômoda apoteose de uma apresentação perfeita. Para que isso? E porque não? Para tirar o grito da garganta , expor a mensagem, com força, com uma energia que seria incontestável, que inclusive nos absolveria de qualquer indisciplina. E aceitaríamos as vaias como aplausos, o suor como um alívio, o nervosismo como energia. Será que vale se indispor?

Na noite da apresentação, meu parceiro me puxou pelo braço, disse que não ia fazer, não queria nem podia, imagina ficar sem trabalho, e a plateia iria nos trucidar, os ânimos estão muito exaltados, era doideira, refletiu depois do ensaio e desistiu. Eu não disse nada, apenas sorri, a essência é concordar, claro, tem razão, é só tocar, você fraseando em bunda mol, eu te mostrando o que é ser homem com h, que enfrenta seus temores. Você dizendo para eu deixar de ser idiota, é muita estupidez se expor assim. Sem emoção, falei que  sou meio qualquer coisa, queria apenas achar minha loucura, ser fiel a mim mesmo. O parceiro invocado apertou meu braço com força  e voz veio ameaçando: vamos fazer música, só isso, por favor. Palmas para o Monstro, para o vampiro que estanca a sangria, para os delicados espectadores que já sentavam às mesas bebendo suas fugas da realidade com ou sem gelo.  Devo obedecer esse som envergonhado? Para que baixo?

 

E chegou a nossa vez. Depois de um solo anormal de sax e o olhar consentido do Monstro, eu não senti mais o peso das baquetas. Fui com tudo, esqueci do ensaio, se perguntassem meu nome nem saberia, política nem rima com música, patética mistura, baixo e bateria, nuvem e poeira, riacho e cachoeira, partindo o couro, sofrendo as cordas, tango e blues, pranto e vírgula, tumor  e êxtase, bate e arrota, depressão, precipício, imersão, e agora bem alto: Fora Temer!



Escrito por osanosjk às 18h23
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